Publicado por Redação em Notícias Gerais - 31/07/2014

Depois de montanha-russa cambial, real está sobrevalorizado

Atualmente cotado em torno de R$ 2,25 por dólar, o real atravessou uma montanha-russa cambial em 20 anos de existência. Na data de sua criação, em 1º de julho de 1994, o real valia exatamente US$ 1. Em outubro do mesmo ano, o dólar chegou a ser cotado a R$ 0,829. Após a crise da Rússia, o câmbio foi liberado e ultrapassou R$ 2 pela primeira vez em fevereiro de 1999. O real, no entanto, atingiu o ponto mais baixo em outubro de 2002, quando o dólar chegou a encostar em R$ 4.

Depois de 2003, o real experimentou uma valorização contínua (com queda do dólar), interrompida pela crise financeira global de 2008. No entanto, as injeções de dólares do Banco Central norte-americano fizeram a cotação voltar a cair para abaixo de R$ 2. Somente no ano passado, com a redução das ajudas monetárias nos Estados Unidos, o câmbio voltou a subir até o nível atual. Apesar da alta recente do dólar, economistas consideram que o real está sobrevalorizado, prejudicando a competitividade e as exportações do país.

Segundo André Nassif, professor titular de Economia Internacional da Universidade Federal Fluminense (UFF), a taxa de câmbio de equilíbrio ? com impacto neutro para exportadores, importadores e produtores domésticos ? está entre R$ 2,70 e R$ 2,90. No nível atual, o câmbio incentiva as importações, desestimula as vendas externas e, advertem os especialistas, torna o país cada vez mais vulnerável a choques internacionais.

Atualmente, o déficit em transações correntes do Brasil está em 3,65% do Produto Interno Bruto (PIB, soma das riquezas produzidas no país). O indicador, composto pela balança comercial, de serviços, de renda e pelas transferências unilaterais, mede a dependência da economia em relação a capitais estrangeiros, que costuma fugir do país em tempos de turbulências externas.

Diretor do Banco Central entre 1985 e 1988 e entre 1999 e 2003, Carlos Eduardo Freitas diz que o país só não sofreu uma crise cambial aguda até agora porque os investimentos estrangeiros diretos ? que geram empregos no país ? continuam fortes, em torno de US$ 65 bilhões por ano. Segundo ele, a política de estímulo ao consumo, que se reflete no aumento das importações nos últimos anos, está gerando os déficits em transações correntes.

?Há deterioração do balanço de pagamentos para elevar o consumo. Se o país estivesse importando máquinas e equipamentos para investir e produzir mais, seria outra história?, critica Freitas. ?O déficit em conta corrente aumentou para uma zona de sinal amarelo. O país está se endividando.?

Para Nassif, o Brasil está repetindo os erros do começo do Plano Real. ?Nos primeiros anos após o plano, o câmbio foi artificialmente valorizado, e o país incorreu em grandes déficits em transações correntes até o início da década de 2000?, recorda. Os anos com piores resultados nas transações correntes após o Plano Real foram 1999 (-4,32% do PIB) e 2001 (-4,19%).

Na etapa inicial do Plano Real, o governo recorreu à âncora cambial para impedir a volta da inflação. Os juros altos para evitar a explosão do consumo e a renegociação da dívida externa em 1992 e 1993 fizeram os recursos externos retornar ao país de uma só vez, pressionando o dólar para baixo. ?Havia muito capital estrangeiro represado, esperando para entrar no país. Os brasileiros tinham muita poupança no exterior e havia estrangeiros desejosos de aplicar no Brasil?, explica Freitas.

De 1994 a 1999, o Banco Central adotou o modelo de bandas cambiais, que permitia ao dólar flutuar dentro de um intervalo e praticamente equivalia a um regime cambial fixo. O modelo ajudou a baratear os produtos importados e a conter os preços dos produtos nacionais. No entanto, ressalta Nassif, o erro consistiu em tornar permanente uma política temporária. ?Diversos estudos recomendam usar a âncora cambial no máximo um ano e meio. Não cinco anos?, diz.

Segundo o professor da UFF, os problemas começaram a partir do momento em que os investidores internacionais pararam de apostar no Brasil após as crises da Ásia, em 1997, e da Rússia, em 1998. Por um momento, o Banco Central queimou reservas internacionais, mas foi obrigado a deixar o real flutuar em 1999. ?Como os investimentos estrangeiros não compensavam mais os déficits em transações correntes, o modelo de câmbio fixo deixou de ser sustentável?, relembra. ?Hoje, o país está com o câmbio livre, mas com as contas externas insustentáveis do mesmo jeito.?

Em 1999, o governo adotou o modelo em vigor até hoje, baseado no controle da inflação por meio da taxa Selic (juros básicos da economia), em vez da âncora cambial. Apesar de o câmbio estar livre, Nassif diz que o real continua sobrevalorizado, com prejuízo para os exportadores e a indústria nacional. Ele sugere que o Banco Central deixe o dólar chegar lentamente à taxa de equilíbrio para então introduzir o controle de capitais estrangeiros que entram no país e impeçam o dólar de cair novamente.

Fonte: Amazonas Notícias - Manaus/AM - NOTÍCIAS - 30/07/2014


Posts relacionados

Notícias Gerais, por Redação

Prévia da inflação sobe 0,27% em setembro e fica abaixo de 6% em um ano

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo-15 (IPCA-15), considerado a prévia da inflação oficial, subiu 0,27% em setembro, ante alta de 0,16% no mês anterior, informou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta sexta-feira (20).

Notícias Gerais, por Redação

Economia fraca faz Azul cancelar abertura de capital

Companhia aérea irá aguardar melhora no mercado para realizar o IPO; na semana passada, a Votorantim Cimentos também desistiu da sua oferta inicial

Notícias Gerais, por Redação

Quarta semana de março teve superávit de US$ 211 milhões

A quarta semana de março, com cinco dias úteis (18 a 24), teve saldo positivo na balança comercial brasileira de US$ 211 milhões, com média diária de US$ 42,2 milhões.

Notícias Gerais, por Redação

Médicos de SP farão novo boicote a planos de saúde em outubro

Os médicos de São Paulo decidiram realizar mais um protesto contra alguns planos de saúde e vão deixar de atender clientes de 11 empresas entre os dias 10 a 18 de outubro.

Notícias Gerais, por Redação

Ministério da Fazenda já tem medidas de incentivo prontas

A equipe econômica está fazendo uma espécie de "marcação a mercado" dos dados econômicos que estão saindo para definir o momento adequado para o anúncio de novas medidas de estímulo.

Notícias Gerais, por Redação

Economia brasileira fica estagnada em fevereiro, diz Serasa

A atividade econômica registrou crescimento nulo no mês de fevereiro deste ano, de acordo com indicador da Serasa Experian divulgado nesta quarta-feira. Na comparação com o mesmo mês do ano passado, houve crescimento de 2,1% da atividade econômica.

Notícias Gerais, por Redação

Dilma diz que nova ministra atuará segundo diretrizes do governo

Na posse da ministra Eleonora Menicucci (Secretaria de Política para Mulheres), a presidente Dilma Rousseff afirmou que a indicada, favorável à descriminalização do aborto, atuará seguindo a linha do governo.

Notícias Gerais, por Redação

Inflação em SP abranda na 3ª medição do mês para 0,22%

O IPC (Índice de Preços ao Consumidor) no município de São Paulo subiu 0,22% na terceira medição de setembro, depois de um acréscimo de 0,25% na apuração anterior e de uma alta de 0,36% na leitura inicial do mês.

Deixe seu Comentário:

=