Publicado por Redação em Notícias Gerais - 26/11/2015

Do turismo à fauna, 5 vozes da tragédia ambiental no litoral capixaba

A chegada da lama liberada pela barragem rompida em Minas Gerais ao litoral do Espírito Santo na região de Linhares (cerca de 130 km de Vitória) está afetando fauna, flora, turismo e o cotidiano, segundo os moradores da região.

Foto aérea mostra lama chegando ao mar na foz do Rio Doce em Regência-ES

Por ser uma área turística, com praias como Regência e Povoação, a região atrai cerca de 200 mil pessoas por ano no verão, segundo dados da Secretaria de Turismo, o que aumentou a preocupação das autoridades e moradores locais.

Enquanto a Samarco (empresa responsável pela barragem que se rompeu a 400 km dali, em Mariana (MG) afirma que "a recomendação do Ministério Público, Iema, Projeto Tamar e Instituto Chico Mendes foi deixar a pluma de turbidez chegar ao mar, local mais adequado para recebê-la", quem vive ali espera uma resposta da empresa para amenizar o problema.

A BBC Brasil ouviu moradores, pescadores, ambientalistas e surfistas sobre os estragos que a lama – que começou a chegar no fim de semana – já está causando.

Tartarugas ameaçadas: 'Ainda não tivemos tempo de chorar'

Para proteger a população de tartarugas que desovam no litoral e evitar seu contato com a lama, o projeto Tamar está removendo os ninhos dos animais – e monitorando a situação, cujo impacto ainda é incerto.

"A grande incerteza hoje é quando vai acabar a descida da lama, para definir o tamanho do impacto. Nos próximos dias, ficaremos na dependência dos ventos e das correntes. A cada dia teremos uma situação diferente", diz à BBC Brasil João Carlos Thomé, coordenador do projeto Tamar/ICMBio.

"Por segurança, estamos movendo os ovos para locais mais ao norte ou ao sul das praias, para que os filhotes possam correr para o mar livres de lama na praia. A tartaruga se alimenta na superfície, ela não respira na água. Ainda não sabemos o impacto que a lama pode ter nela. Mas os peixes estão morrendo porque o sedimento é muito fino, entra nas brânquias e ele não consegue respirar."

Thomé diz que, sem saber ao certo a dimensão dos impactos ambientais, "ainda não tivemos tempo para chorar, só estamos trabalhando".

"Esta é uma das áreas mais importantes da costa brasileira para a conservação de espécies. No caso das tartarugas marinhas, são 30 anos de trabalho protegendo as desovas."

A incerteza dos pescadores: 'O rio acabou'

Leônidas Carlos, 68 anos, presidente da Associação dos Pescadores de Regência (ES), diz que a comunidade de pescadores não consegue sair para pescar desde a semana passada, por conta do "tsunami" de lama que invadiu o rio Doce, que desemboca no Atlântico ao lado da praia.

"Nós vivemos disso. Eu tenho dez filhos, sustentei todos pela pesca. Como fica a situação? Como pagamos escola para os nossos filhos?", diz ele à BBC Brasil. "Minha maior tristeza é ver o rio Doce dessa forma; o rio acabou. O que eu vou falar para os meus filhos, que cresceram nesse rio? Até as ondas do mar ficaram pesadas com aquela água. E quanto mais chover, mais a lama desce pra cá. E estamos na época da enchente, vai ser complicado."

Segundo Carlos, após fazerem queixa na Samarco, 68 pescadores passaram a trabalhar com a empresa para "amenizar a situação".

"Estamos colocando as barreiras e recolhendo os peixes mortos, e eles nos pagam. Mas as barreiras não adiantam, elas são próprias pra óleo, não para lama. Então estamos aí na luta para ver como fica. Porque hoje nós não temos mais o rio Doce. Ele não existe mais para nós."

Carlos afirma que a comunidade vai exigir da Samarco a média que cada um dos 68 trabalhadores ganhava por mês com a pesca - segundo ele, R$ 1.800.

"Durante o tempo que a água estiver assim, eles vão ter que pagar isso pros pescadores."

De acordo com Thomé, do Tamar/ICMBio, "a comunidade pesqueira vai ter que ficar um tempo sem pescar, ainda não sabemos quanto. Isso vai demandar uma organização social muito grande, tanto de quem mora aqui quanto de quem possa apoiar externamente, seja buscando alternativas econômicas, seja oferecendo atendimento psicológico. Algumas pessoas estão muito abaladas, toda sua vida está em risco, seus investimentos".

O surfe proibido: 'Nosso Havaí era aqui'

Aline Goulart, enfermeira e surfista, mora há 13 anos em Regência, onde trabalha no programa Saúde da Família. "Uni o útil ao agradável, para poder exercer minha profissão e fazer minha paixão, que é surfar."

Mas, desde a última terça-feira, está proibido surfar por ali, por causa da invasão da lama. "O pessoal está se mobilizando na praia, foram fazer um abraço simbólico no mar para se despedir da nossa 'tubolândia'. Aqui temos a quarta melhor onda do país. Nosso Havaí era aqui. E acabaram com nosso sonho. Para eles, o que importa são os minérios, mas para nós, o importante é a natureza."

Aline também sentiu o impacto na pequena pousada que administra.

"São três quartos que a gente aluga para o pessoal que vem surfar ou passar alguns dias no verão. Mas quando souberam que a lama estava chegando, o pessoal foi embora. Ninguém mais manda e-mail, nem telefona para perguntar sobre diária, pacote de réveillon. O verão aqui tem um movimento muito grande por causa da natureza. (O movimento) Do Ano Novo até o Carnaval é o que nos traz a sobrevivência de um ano inteiro. Isso foi um tapa imenso. A gente já está tomando prejuízo."

O presidente da Associação dos Surfistas da região, Rodrigo Venturini, diz que ninguém sabe ao certo o que fazer.

"É uma tristeza muito grande, estamos nos sentindo presos, de mãos atadas. Nesta semana tem previsão de onda e ninguém pode ir para o mar surfar. A gente não sabe depois dessa lama quantos dias, quantos anos vai continuar assim. A gente gostaria só queria que voltasse ao normal, que nunca tivesse acontecido isso. A gente quer a água limpa de novo para voltar a surfar."

O cotidiano e a renda: 'Todas as reservas foram canceladas'

Fábio Gama Regis mora há 30 anos na região e é vice-presidente da Associação de Moradores de Regência. Ele diz que o maior problema é que, por conta das correntes marítimas, "a gente não sabe quanto tempo a lama vai ficar na região. Nem a Samarco sabe".

"Nós temos duas rendas aqui, que são o turismo e a pesca. E isso foi 100% afetado. Esse verão seria especial para nós. Porque com o dólar alto, as pessoas não iam viajar para fora. A gente tinha esperança de que seria o melhor verão da história aqui em Regência. Os comerciantes investiram muito dinheiro para fazer esse verão e agora estão desesperados, não sabem o que fazer. Nunca teve tanta expectativa, mas agora 100% das reservas foram canceladas."

Ele diz que há insatisfação com a Samarco por, segundo ele, não ter havido uma reunião com a comunidade. "E isso gera insatisfação, claro. Gera conflitos, protestos, não tem como evitar. Faltou eles chegarem para dizer 'nós erramos' e discutir o que pode ser feito."

"É complicado, não consigo nem pensar no que vai acontecer daqui uma hora, muito menos daqui uma semana, um mês. Estamos resolvendo um problema de cada vez. Eu estou cuidando da questão da água. Já falei com a empresa que não pode faltar abastecimento de água e, por enquanto, não está faltando."

Posicionamento da Samarco em nota

A recomendação do Ministério Público, Iema, Projeto Tamar e Instituto Chico Mendes foi deixar a pluma de turbidez chegar ao mar, local mais adequado para recebê-la. Segundo os especialistas, a diluição do material será mais rápida em função do volume de água, ao contrário do que aconteceria se ele ficasse estacionado no estuário.

A Samarco informa que prossegue utilizando nove quilômetros de barreiras de contenção para proteger as áreas mais sensíveis do estuário localizado em Regência, distrito de Linhares (ES). A empresa informa, ainda, que a pluma de turbidez está a aproximadamente 12 km da boca do rio de Regência ao alto mar, cerca de 15 km da boca do rio ao Norte e 7 km para o Sul. A eficiência das barreiras instaladas nas áreas protegidas variou de 47% até 91% se compararmos a turbidez da água de dentro do estuário ao canal principal do rio.

A Samarco contratou a Golder Associates, empresa especialista em desastres dessa magnitude, que se dedicará à elaboração de planos, gestão e supervisão das ações que serão implementadas em todas as áreas impactadas ao longo do Rio Doce. A Samarco também estuda parcerias com outras instituições ambientais, como o Instituto Terra, do fotógrafo Sebastião Salgado, que tem atuação voltada para a recuperação ambiental de mananciais ao longo do rio."

Fonte: BBC Brasil


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