Publicado por Redação em Notícias Gerais - 04/11/2015

Inclusão social perde brilho com crise no Brasil e na América Latina

Bruno Lino, que trabalhava em loja que fechou em São Paulo.

Bruno Lino, que trabalhava em loja que fechou em São Paulo.

Menor crescimento vai impactar capacidade dos Estados de seguir no combate à pobreza

O presidente do Banco Mundial, Jim Yong Kim, resumia a princípios deste mês de outubro de 2015 os avanços sociais da América Latina no último meio século: “A esperança de vida aumentou de 59 anos a 75 anos, a mortalidade infantil reduziu-se de 96 por 1.000 a 16 por 1.000, a pobreza extrema caiu pela metade e pela primeira vez na história, há mais latino-americanos na classe média do que na pobreza”.

A síntese de Kim não detalhava que esses avanços se interromperam quase por completo na década perdida dos anos oitenta. E que devem muito ao que Eduardo Gudynas, do Centro Latino-americano de Ecologia Social, chama da “conjugação inesperada” na década vencida (2004-2013): “Os altos preços de matérias-primas geraram maiores excedente e reforçou-se o papel do Estado no combate à pobreza”.

Gudynas sublinha que se privilegiaram as compensações em dinheiro, em referência a programas de transferência de renda como o brasileiro Bolsa Família. Houve também avanços na redistribuição dos rendimentos, embora a América Latina continue sendo, de longe, a área mais desigual do mundo. Guillermo Calvo, da Universidade Columbia, teme que os lucros sociais não consigam se manter: “O déficit fiscal leva a um ajuste. Pode ser que as transferências aos pobres se mantenham, mas vai se tirar do investimento, o continente crescerá menos e serão criados menos empregos”, prognostica. “Muitos dos que ingressaram nas classes médias vão cair de nariz.”

No Brasil: queda da renda e desemprego

No caso do Brasil, a desaceleração da economia já cobra fatura na área social, segundo o economista Marcelo Neri, ex-ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos do Governo Dilma. "A desigualdade parou de cair no país e agora ela está andando de lado. O que me preocupa nessa era de desajustes de contas públicas é que a desigualdade não vai voltar a cair nos próximos anos e estagnamos em um nível alto", afirma Neri, chefe do Centro de Políticas Sociais da FGV-RJ e ex-presidente do IPEA (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas).

O especialista explica que nos últimos anos, a melhora na distribuição de renda brasileira não se deu apenas pela implementação de programas sociais, como o Bolsa Família. Segundo Neri, o fator que mais contribuiu para melhorar a vida dos 40% de brasileiros mais pobres foi o aumento da renda média do trabalhador. Durante a última década, a parcela mais pobre do Brasil viu seus ingressos crescerem 5,8% ao ano. "Ou seja, avançava muito mais que o PIB brasileiro, sendo que, desse valor, 3,9% vinham da renda do trabalho. Eles subiram na vida porque trabalharam, pois o mercado estava aquecido e algumas questões estruturais avançaram, como a educação. Claro que os programas sociais deram um empurrão, mas a maior parte veio do esforço do trabalhador", explica.

É justamente esta renda do trabalhador que tem caído fortemente neste ano de recessão e de certo panorama de estagflação, uma combinação de inflação e desemprego altos. "A queda da renda é muito pior que a queda do PIB em si. Na virada deste ano, a reversão foi muito rápida e o prognóstico é bem negativo para o futuro, principalmente nas zonas metropolitanas".

O economista avalia que ainda é cedo para concluir que os avanços conquistados estejam em risco em nível nacional, no entanto já vê alguma regressão “do que foi conquistado pelas classes mais baixas principalmente nas regiões metropolitanas e nas periferias". Um das pressões contra essas conquistas é a queda do emprego formal. Só neste ano foram fechados mais de 600.000 postos formais de trabalho nos dados contabilizados até setembro pelo Ministério do Trabalho. É o pior resultado desde 1992. Nos últimos 12 meses, as perdas chegam a 1,2 milhão de vagas.

Na opinião do cientista político Pedro Fassoni de Arruda, da PUC, a nova política de ajustes das contas públicas no país, que avalia necessária, inevitavelmente implicará em cortes na educação e saúde. "Mas os avanços estruturais dos últimos anos foram importantes e não devem voltar a estaca zero. Ainda estamos em um momento conjuntural", conclui.

Fonte: El País Brasil


Posts relacionados

Notícias Gerais, por Redação

G20 confirmará empréstimo ao FMI apesar de atraso em reforma

Os líderes das principais economias do mundo estão prontas para confirmar que farão novos empréstimos ao Fundo Monetário Internacional (FMI) para combater a crise, apesar de algumas nações emergentes estarem frustradas com o ritmo lento de conquista de mais poder no credor global.

Notícias Gerais, por Redação

Bovespa fecha em alta à espera de eleição na Grécia

O principal índice da Bovespa ampliou os ganhos na etapa final do pregão desta sexta-feira e fechou em linha com Wall Street, após ter passado a maior parte da sessão praticamente estável.

Notícias Gerais, por Redação

Dólar inverte sinal e passa a perder valor perante o real

O dólar inverteu o sinal pouco após a abertura da sessão desta segunda-feira e passou a operar em território negativo, mas ainda sustentando a faixa de R$ 1,72.

Notícias Gerais, por Redação

Bovespa tem alta após leilão de títulos na França

A Bovespa operava em alta nesta segunda-feira, após um leilão bem sucedido de títulos na França, e também sob influência do vencimento de opções sobre ações, com foco em Petrobras e Vale.

Notícias Gerais, por Redação

Bovespa sobe 1,4% na abertura; dólar cede para R$ 1,81

As ações brasileiras valorizam desde os primeiros negócios da jornada desta quinta-feira, em sintonia com o desempenho já visto nas Bolsas europeias.

Deixe seu Comentário:

=