Publicado por Redação em Saúde Empresarial - 08/07/2026
Para 82% dos brasileiros com burnout e ansiedade, o real gatilho é o bolso
:format(webp))
O mercado corporativo e a medicina tradicional há anos tentam mapear as causas do crescimento vertiginoso dos transtornos mentais no Brasil. Aponta-se o excesso de carga horária, a pressão das metas e a hiperconectividade como os grandes vilões do século 21. No entanto, um diagnóstico mais profundo revela que a raiz do esgotamento contemporâneo pode estar bem longe do escritório: está no extrato bancário.
Uma pesquisa inédita realizada pela Associação Brasileira dos Educadores Financeiros (ABEFIN), em parceria com o Instituto Axxus, acendeu o alerta vermelho na intersecção entre economia e saúde pública. Segundo o estudo, 81,9% das pessoas diagnosticadas com transtornos mentais apontam que os problemas financeiros tiveram participação relevante, em algum grau, no desenvolvimento ou no agravamento de seu quadro psicológico.
O levantamento ouviu 1.000 brasileiros de todas as regiões do país que possuem diagnóstico formal de ansiedade, depressão, estresse crônico ou síndrome de Burnout. As entrevistas foram conduzidas de forma presencial e em profundidade por psicólogos especializados, isolando os fatores que os pacientes associam ao surgimento de suas patologias.
O dinheiro como o maior gatilho psicológico
Os dados detalham o tamanho do impacto do endividamento e da escassez na mente do brasileiro. Para 27,1% dos entrevistados, as dificuldades financeiras foram a causa exclusiva do adoecimento mental. Outros 32,4% afirmaram que elas representaram a causa predominante entre diversos fatores, enquanto 22,4% apontaram as finanças como uma das principais causas de seus problemas emocionais.
Quando questionados de forma direta sobre o principal gatilho para o surgimento do transtorno, o dinheiro liderou de forma isolada, superando problemas tradicionalmente temidos pela gestão de RH e pela psicologia:
-
Dificuldades financeiras: 34,6%
-
Problemas relacionados ao trabalho: 20,5%
-
Relacionamentos afetivos: 11%
-
Separação/Divórcio: 10,9%
-
Doenças físicas: 8,3%
-
Luto: 5%
Para o presidente da ABEFIN, Reinaldo Domingos, o dinheiro deixou de ser uma métrica puramente econômica para se transformar em um indicador de bem-estar. "A pesquisa mostra que a saúde financeira e a saúde mental estão profundamente conectadas. Quando uma pessoa vive sob pressão constante para pagar contas, lidar com dívidas, enfrentar a falta de recursos ou a insegurança sobre o futuro, isso inevitavelmente produz impactos emocionais", analisa.
O paradoxo da classe A: o medo de cair dói mais
Um dos pontos mais disruptivos do estudo joga por terra a premissa de que o sofrimento emocional ligado ao dinheiro é uma exclusividade das classes sociais mais baixas. O levantamento revelou que 49,1% dos entrevistados da Classe A apontaram os problemas financeiros como o principal gatilho para o adoecimento mental — o maior percentual registrado entre todas as faixas econômicas da amostra.
De acordo com Reinaldo Domingos, a pressão financeira muda de roupagem, mas mantém a mesma agressividade psicológica a depender do bolso do indivíduo.
"Muitas vezes se associa a dificuldade financeira apenas à falta de renda. Mas existe também a pressão para manter patrimônio, padrão de vida, compromissos financeiros e expectativas futuras. O medo de perder aquilo que foi conquistado pode gerar um nível de estresse tão significativo quanto a escassez de recursos. O sofrimento emocional relacionado ao dinheiro não escolhe classe social."
O mapa da dor: radiografia regional e geracional
A pesquisa também desenhou o mapa dos transtornos no Brasil, expondo vulnerabilidades geográficas e de idade bastante específicas:
-
Eixo Norte-Nordeste: Lidera os maiores índices de ansiedade, registrando 53,4% no Norte e 50,6% no Nordeste.
-
Sudeste corporativo: Apresentou a maior incidência de síndrome de Burnout, atingindo 31,2% dos participantes — um reflexo do ritmo acelerado das metrópoles.
-
Gatilho Sul e Centro-Oeste: Nestas regiões, observou-se a maior proporção de pessoas que culpam o dinheiro como o estopim de suas crises, com 37% e 37,5%, respectivamente.
-
A Crise dos Jovens: Entre a faixa de 18 a 30 anos, a ansiedade explode e alcança 52,3%, o maior índice do estudo.
-
Depressão na Terceira Idade: Já entre a população com mais de 60 anos, a depressão é o diagnóstico prevalente, atingindo 42,1% dos idosos ouvidos.
Efeito cascata e o abismo do pessimismo
A asfixia financeira sabota todas as outras áreas da vida do indivíduo. A rotina de escassez e cobranças gera reflexos severos fora do orçamento doméstico: prejudicou o lazer de 64,9% dos participantes, alterou o humor de 61,9%, estremeceu as relações familiares de 60,1%, destruiu a qualidade do sono de 56,1% e derrubou o desempenho profissional de 42,8%.
"Os principais desafios financeiros cotidianos dos entrevistados com transtornos mentais são: a dificuldade para pagar contas básicas (69,4%), a existência de dívidas acumuladas (61,2%), a renda insuficiente para cobrir as necessidades do dia a dia (53,6%) e o desemprego (31,1%)"Pesquisa ABEFIN / Instituto Axxus
O dado mais alarmante e que exige ação imediata de gestores de RH e psicólogos é o abismo de perspectiva do brasileiro. Enquanto 35,9% se mostram otimistas em relação à melhora da própria saúde mental, apenas 20% acreditam que sua situação financeira irá melhorar. Pelo contrário: 67,2% afirmam ter uma visão pessimista ou muito pessimista sobre o próprio futuro econômico.
Mesmo diante de um cenário tão devastador e da clara correlação de causa e efeito, o estudo aponta que 48,5% dos entrevistados nunca buscou qualquer tipo de orientação profissional em educação financeira.
"Estamos diante de um desafio que exige ações em várias frentes. É preciso ampliar a educação financeira nas escolas, fortalecer programas corporativos e aproximar profissionais da saúde mental das questões financeiras que afetam seus pacientes. Não estamos falando apenas de dinheiro, mas de segurança emocional e prevenção", conclui Domingos.
Fonte: Exame







