Publicado por Redação em Gestão do RH - 12/08/2026
Tapete vermelho na entrada, porta dos fundos na saída

A forma como uma empresa se despede de quem sai revela mais sobre sua cultura do que todo o discurso usado para receber quem chega.
Colunista Mundo RH, Lilian Giorgi, Managing Director da A&M Latam
A maioria das empresas não tem um problema de contratação. Tem um problema de despedida. E é justamente aí, no lugar para onde quase ninguém olha, que a cultura mostra quem ela é de verdade.
Contratar é fácil de encenar. No primeiro dia, todo mundo está no seu melhor: a empresa vende o sonho, o profissional vende o talento, e há kit de boas-vindas, post nas redes, café com o time e um discurso bonito sobre pertencer a algo maior. A entrada é ensaiada. Tem processo, tem nome, tem verba.
A saída não tem ensaio. Costuma ser um comunicado em uma sexta-feira à tarde, o acesso bloqueado antes de a conversa terminar, o crachá recolhido e um “desejamos sucesso” que ninguém sente. Quem ontem era parte do time vira, em minutos, uma pendência de TI e do Jurídico. Não porque quem conduz seja frio, mas porque ninguém desenhou aquele momento com o mesmo cuidado com que desenhou o primeiro dia.
E o detalhe que passa despercebido é este: a contratação é uma promessa; a demissão é a prova. É fácil ser acolhedor quando se está conquistando alguém. O caráter de uma organização aparece quando não há mais nada a ganhar com aquela pessoa. Cuidado ou pressa. Dignidade ou constrangimento. É esse o momento que fica na memória. E é esse o momento que a pessoa vai narrar, com detalhes, em toda entrevista, em toda conversa de bar, em toda conversa com quem pensa em aceitar a sua vaga.
A gente costuma tratar quem sai como página virada. Mas quem sai não desaparece. Vira cliente, vira concorrente, vira a referência que o seu próximo candidato vai procurar antes de dizer sim. Vira, às vezes, alguém que você gostaria de ter de volta e não terá, porque a última lembrança que deixou foi a de uma porta batida. A forma como alguém é demitido não encerra uma relação. Define todas as que vêm depois.
Demitir bem não é generosidade e não é sobre dinheiro. É sobre intenção. Passa por preparar quem vai conduzir a conversa, porque a mesma notícia, dita com respeito ou com frieza, deixa duas memórias completamente diferentes. Passa por reconhecer, antes de qualquer comunicado, o que aquela pessoa construiu e entregou. Passa por oferecer uma transição com alguma dignidade e por deixar a porta aberta, em vez de fingir que a relação nunca existiu. Nada disso é caro. Caro é o oposto.
Reparo que muitas empresas medem com obsessão a experiência de quem chega e não fazem a menor ideia da experiência de quem sai. Investem no encantamento e terceirizam o desencanto. Depois, perguntam-se por que a reputação como empregador não corresponde ao discurso interno. A resposta costuma estar exatamente ali, no momento que escolheram não olhar.
Talvez seja hora de uma pergunta desconfortável: se a sua cultura fosse julgada não pelo que você promete a quem entra, mas pelo modo como você se despede de quem sai, ela sobreviveria ao próprio veredito?
Fonte: Mundo RH







