Publicado por Redação em Notícias Gerais | 04/11/2015 às 10:44:00


Casamentos "ambivalentes" fazem mal para a saúde, diz estudo


Casamento infeliz

Todo casamento tem altos e baixos de tempos em tempos, mas algumas relações são constantemente boas e ruins ao mesmo tempo. Podemos chamar isso de casamento ambivalente --nem sempre horrível, mas nem sempre ótimo, tampouco.

Embora muitos casais possam sem dúvida se identificar com este estado de coisas nem boas nem ruins, uma nova pesquisa mostra que essa ambivalência num relacionamento --a sensação de que o apoio ou a negatividade do parceiro podem ser imprevisíveis-- pode aos poucos afetar a saúde de um indivíduo.

Os resultados, publicados este mês por pesquisadores da Universidade Brigham Young, fazem parte de um crescente corpo de pesquisa que tenta analisar o chamado "benefício do casamento", a ideia corrente de que as pessoas casadas são, em geral, muito mais saudáveis e vivem mais do que as solteiras. Mas cada vez mais os pesquisadores estão tentando entender os efeitos mais sutis do casamento sobre a saúde. Para sentir os benefícios do casamento para a saúde, não basta apenas estar casado? Ou, quanto a qualidade do casamento, como o nível de apoio, carinho, negatividade ou comportamento controlador, afeta a saúde de casais aparentemente estáveis?

"Infelizmente, muitas das pesquisas sobre os benefícios do casamento medem a qualidade do relacionamento numa escala unidimensional", disse Wendy C. Birmingham, que liderou o estudo, publicado na revista Annals of Behavioral Medicine. "Eles avaliam se você está feliz ou não, se você se sente apoiado ou não. Mas nem todos os relacionamentos são unidimensionais."

Em um estudo cuidadosamente controlado feito com 94 casais heterossexuais em Salt Lake City, os pesquisadores entrevistaram cada parceiro individualmente sobre o nível de interações positivas e negativas no casamento. Os casais estavam casados em média há 5,4 anos, mas a duração dos casamentos variava de um ano até 41 anos. Cerca de 15% eram casados há uma década ou mais. Ambos os parceiros trabalhavam em tempo parcial ou integral, e nenhum casal tinha filhos ou qualquer outra pessoa vivendo em casa.

"Queríamos observar os efeitos do que acontecia entre o casal, e não porque outra pessoa estava morando na casa", disse Birmingham.

Os pesquisadores perguntaram sobre a quantidade de apoio positivo que homens e mulheres recebiam de seus parceiros ou davam aos seus parceiros quando um deles precisava de conselhos ou compreensão. Eles também perguntaram sobre o nível de negatividade entre os parceiros no cotidiano, ou quando eles ficavam animados ou felizes com alguma coisa.

Com base nas respostas, os pesquisadores determinaram que 23% dos casais estavam em casamentos de apoio, com níveis baixos de negatividade. Os 77% restantes deram respostas mistas, sugerindo que seus casamentos eram mais ambivalentes em termos de sentimentos positivos e negativos.

Em seguida, foi medida a pressão arterial basal dos homens e as mulheres, e eles usaram um monitor de pressão arterial durante um dia inteiro, de manhã até a hora de dormir. Após leituras de pressão arterial aleatórias durante o dia, duas por hora, os indivíduos registravam exatamente o que estavam fazendo no momento em que a pressão era medida --comendo, trabalhando, descansando, interagindo com o parceiro. Eles eram questionados sobre seu humor em geral e sobre seus sentimentos em relação ao parceiro naquele momento.

Para garantir a precisão, os entrevistados tinham apenas cinco minutos após a medição da pressão para preencher o diário; de outro modo os dados não seriam incluídos. (No fim, apenas 7% dos registros do diário foram descartados, menos de um por participante, sugerindo que os casais foram atentos ao cumprir o protocolo do estudo.)

Os resultados revelam a natureza complexa das relações conjugais e os efeitos sutis que os momentos positivos e negativos de um casamento podem ter sobre a saúde física. Quando os pesquisadores analisaram as leituras de pressão arterial, descobriram que os homens e mulheres que tinham relações ambivalentes apresentaram leituras de pressão arterial sistólica mais alta durante um determinado dia. Isso sugere que um dos benefícios assumidos do casamento --uma melhor saúde cardiovascular-- pode não ser tão grande para casais com casamentos ambivalentes.

Na verdade, o estudo tem suas limitações. Todos os casais eram heterossexuais, na maioria brancos e moravam na mesma cidade. Também não está claro se as descobertas sobre o aumento da pressão arterial mostradas no estudo levariam à piora da saúde ao longo do tempo.

Dito isto, a conclusão de que os benefícios do casamento para a saúde dependem da qualidade do relacionamento foram confirmadas em outras pesquisas. Por exemplo, um estudo da Universidade de Utah revelou que uma briga conjugal sem nenhum afeto ou com tom controlador pode ser um fator de previsão de problemas cardíacos tanto quanto se o indivíduo fosse fumante ou tivesse altos níveis de colesterol.

Pesquisadores da Universidade Estadual de Ohio descobriram que as feridas cicatrizam mais lentamente quando os casais têm brigas hostis, em comparação com os casais que administram os conflitos sem hostilidade. Na Universidade de Virgínia, estudos mostraram que quando casais felizes se dão as mãos, o efeito calmante sobre o cérebro é semelhante àquele causado por analgésicos. Mas os casais infelizes não mostraram o mesmo benefício.

Arthur Aron, do Laboratório de Relações Interpessoais da Stony Brook University, em Nova York, observa que todo casamento apresentará qualidades boas e ruins, inevitavelmente. Mas Aron, que não esteve envolvido no estudo da BYU, disse que os resultados sugerem que a natureza imprevisível de uma relação ambivalente pode ter seu preço.

"Apoiar algumas vezes e outras não é a mesma coisa que dar pouco apoio o tempo todo", disse Aron. "Parte do problema pode ser a imprevisibilidade. Quando você sabe que alguém não vai apoiá-lo, você se acostuma com isso. Mas se às vezes a pessoa é de um jeito e às vezes de outro, é muito mais difícil."

James A. Coan, professor da Universidade de Virgínia que conduziu os estudos sobre casais que se dão as mãos, disse que aqueles que acham que têm uma relação ambivalente não precisam entrar em pânico por causa dos resultados do estudo, mas devem se sentir motivados a trabalhar o relacionamento e procurar terapia antes que os problemas se tornem intratáveis.

"Eu penso nos relacionamentos como se fossem um mercado de ações", disse ele. "Existem momentos de alta e de baixa, em períodos curtos de tempo, mas se você olhar a longo prazo, o investimento quase sempre compensa."

Fonte: Uol Notícias


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