Publicado por Redação em Carreira | 28/05/2020 às 12:00:41

A rotina de cinco profissionais em dois meses de isolamento social

Uma produtora de shows que trocou as estradas para passar a quarentena com a equipe do escritório. Uma gerente de loja que hoje trabalha com as portas fechadas e escreve bilhetes de carinho para os clientes. Um gestor de fábrica de alimentos que precisou intensificar a liderança para engajar os trabalhadores. Eles são exemplos de rotinas profissionais alteradas durante a pandemia do novo coronavírus.

O isolamento social decretado pelo governo de São Paulo completa dois meses neste domingo, 24. De lá para cá, muito do que era conhecido socialmente como normal deu lugar a novos hábitos. Trabalhar de casa virou regra para muitos profissionais, outros foram demitidos ou tiveram seus contratos suspensos. Dependendo da carreira, o volume de trabalho aumentou ou compromissos foram cancelados, e em ambos os casos o estresse e a ansiedade podem ter crescido.

Conheça a seguir a rotina de cinco profissionais que contaram suas histórias para o Estadão.

‘Resumindo: o meu trabalho tem sido cancelado’

Isadora Silveira, 28 anos, produtora executiva de artistas

 

“Eu trabalho na F Simas, escritório de agenciamento de carreiras artísticas. Sou produtora executiva, então, em um mundo sem pandemia, de segunda a sexta eu faço a parte de escritório: recebo cotações de shows, organizo logística, hospedagens, passagens, contratação de fornecedores.

A minha segunda frente de trabalho é ir para a estrada acompanhar os shows de uma das artistas do escritório, a dupla Anavitória. No dia em que começaram os primeiros cancelamentos de eventos, a gente estava voltando de shows no Nordeste e íamos para os Estados Unidos para uma turnê, que foi cancelada. Tivemos que cancelar tudo de abril e maio. Resumindo: o meu trabalho tem sido cancelado (risos).

A produtora Isadora Silveira foi de planejar 15 shows por mês para produzir uma live. Foto: Felipe Simas

Eu fazia cerca de 20 viagens por mês e já não viajo mais. O dia a dia é reorganizado para que a gente tente pensar quando esses shows adiados vão acontecer. Ainda faço o trabalho de escritório, mas meu ritmo diminuiu uns 80%.

Tiro a manhã para ficar mais tranquila e me exercitar e deixo a tarde para trabalhar. Como temos outros artistas agenciados, que fazem publicidade, eu continuo trabalhando nesses contratos. Com os novos shows acontecendo em forma de live, o processo de contratar é menor, mas similar. Eu fui de produzir 15 shows por mês para produzir uma live.

Durante a quarentena, deixei minha casa em São Paulo e vim para o interior do Rio de Janeiro, com as pessoas com quem trabalho. Optamos por estar na mesma casa para que a gente pudesse produzir e trabalhar. Neste tempo, as meninas do Anavitória acabaram compondo uma música e decidimos gravar um vídeo na casa em que estamos.

É como se o mundo tivesse desacelerado de uma forma muito louca. Conversando com outros produtores, a gente tem falado muito de que nunca tivemos tanto tempo. Sempre emendamos artistas, projetos, turnês. Eu trabalhava de segunda a segunda, nunca tive hora. Então tenho aproveitado esse tempo para terminar cursos que eu queria fazer e não conseguia.

Eu tenho sentido que todo mundo dessa área, desde produtores até o pessoal que trabalha em casas de shows, têm se preparado para o novo, ainda que a gente não saiba como ele vai ser. Não sabemos se serão shows em drive in ou com capacidade reduzida das casas, se vamos poder viajar, se os shows terão que ser apenas nas cidades dos artistas ou se as lives vão durar mais tempo.

Mas eu penso no medo que as pessoas vão ter de se aglomerar depois de ficar tanto tempo em casa. Acho que vai ser um passo muito difícil e a nossa área vai ser a última a voltar. O entretenimento é considerado supérfluo para algumas pessoas e isso acaba não sendo prioridade nos gastos. Mas não posso desanimar. As pessoas na minha área costumam estar preparadas para qualquer coisa.”

‘Na prática, meu serviço precisa de computador e cadeira’

Letícia Nogueira, 30 anos, advogada

“Eu estou há mais de 50 dias sem pisar na rua para absolutamente nada. A transição para o home office em si não foi difícil porque o meu dia já consistia em ficar sentada na frente de um computador, mas o volume de trabalho aumentou desde o início da pandemia. Houve algumas demissões no escritório e as equipes ficaram reduzidas.

Também passei a fazer audiências. Embora eu trabalhe em São Paulo, a maioria dos clientes do escritório tem demandas em nível nacional, então os processos correm em outros Estados.

A advogada Letícia Nogueira passou a fazer audiência virtual. Foto: Tainah da Costa

Antes da quarentena, eu contratava correspondentes nos outros Estados para fazer os compromissos presenciais. Eu não tinha demanda externa na minha rotina, mas como muitos locais determinaram a realização de audiências por videoconferência durante a pandemia, eu passei a fazê-las diretamente da minha casa.

Cada Estado faz de um jeito, alguns pelo Zoom, outros pelo WhatsApp. Costumam ser audiências rápidas, de conciliação, para dizer se há acordo entre a empresa e o cliente ou não. Nesses dias, eu coloco uma blusa social, passo maquiagem, mas continuo de calça de pijama e meia colorida por baixo.

Nós também tivemos a redução da jornada e do salário, então agora eu tenho um dia de folga na semana, o que acaba fazendo com que eu tenha que redistribuir o que faria naquele dia. São nessas folgas que faço as tarefas domésticas. Eu moro em uma casa grande, com dois gatos, então estou sempre fazendo faxina.

Antes da pandemia, já se via cada vez mais escritórios com trabalho remoto, tanto pela eficiência quanto pela redução de custos indiretos. Essa realidade vai se transformar cada vez mais em regra. O escritório físico é mais por tradição, mas, na prática, o meu serviço não precisa de uma estrutura enorme, mas de um computador e uma cadeira confortável.”

‘Tenho certeza de que reunião online veio para ficar’

Alberto Lazzarini, 36 anos, gerente de fabricação na Nestlé

“Eu trabalho há 18 anos na indústria de alimentação, 10 deles na Nestlé. A minha rotina consiste em gerenciar as linhas de produção. Trabalho com cerca de 400 pessoas abaixo de mim, então gerencio os processos, as pessoas e os projetos.

Essa rotina não mudou com a pandemia. Por ser do setor de alimentos e bebidas, considerado serviço essencial, a fábrica continua operando com 100% de capacidade. O que mudou foi o distanciamento.

O gerente Alberto Lazzarini têm reforçado a liderança para deixar seus colaboradores seguros e informados. Foto: Acervo Nestlé

Quando eu chego à empresa, a primeira coisa que faço é ter a apuração dos dados de produção das últimas 24 horas. Faço análise das entregas, vejo se estamos cumprindo os indicadores de produção. Muitas vezes, precisamos atuar nessas questões, então temos reuniões logo pela manhã. É aí que aparecem as primeiras mudanças.

Nós fazíamos as reuniões de forma presencial, eu tinha uma locomoção maior dentro da fábrica para isso. Agora, são feitas por aplicativos, como Skype e Microsoft Teams, e elas são muito mais dinâmicas. Tenho certeza de que isso veio para ficar.

Como gerente, preciso estar em contato com as pessoas, cumprimentar, acompanhar os turnos. Essa interação, a proximidade, os cumprimentos eu tive que mudar. Mas, como gestor, eu preciso me fazer mais presente também. Tive que intensificar a liderança, trazer o foco e a responsabilidade. Então aumentei as minhas caminhadas pela fábrica para que as pessoas se sintam seguras para terem informações e dar suas opiniões neste momento. É importante que os colaboradores confiem em mim.

Neste período, também faz parte do trabalho buscar benchmarking para saber o que fazer. Alteramos o layout do refeitório, reduzimos as cadeiras e mesas, aumentamos os horários de refeição. Tivemos que incorporar novos EPIs, como as máscaras e novos comportamentos. Junto com as outras equipes, também tivemos que pensar em uma nova disposição da linha de produção. Cada função já tem seus postos de trabalho desenhados, mas tivemos que ampliar o distanciamento para manter a segurança das pessoas.

A pandemia trouxe um momento de reflexão para podermos mudar coisas na nossa rotina e acelerarmos outras para as quais teríamos mais prazo em uma curva mais suavizada.”

‘Estar em casa pode ser armadilha se não houver atenção’

Bruna Silva, 30 anos, consultora de sustentabilidade na 3 é Par

“Eu sou cofundadora da empresa e atuo como consultora de sustentabilidade para organizações sociais e públicas. Realizo meu trabalho dentro dessas empresas, além de treinamentos, palestras e cursos pelo Brasil.

Antes da pandemia, minha rotina era de reuniões presenciais e viagens muito frequentes. Eu praticamente não tinha um lugar fixo de trabalho, pois as reuniões costumavam acontecer diretamente nos clientes ou lugares onde os projetos estavam sendo realizados. Também gostava de frequentar algumas cafeterias e coworkings para trabalhar. Esse dinamismo é uma das coisas de que mais gostava.

Bruna Silva teve que trocar as viagens e visitas a empresas pelo escritório de casa. Foto: Daniel Teixeira/Estadão

No começo de março, todas as minhas viagens do mês foram canceladas. Fui de viajar cerca de nove dias por mês para nada. Eu tinha duas palestras agendadas e o início de um projeto, ambos fora do Estado. Desde então, esses projetos estão congelados, sem data prevista para serem retomados.

Nós tivemos um grande impacto imediato com o cancelamento de alguns trabalhos e o congelamento de projetos que demandavam presença física. A renda diminuiu. Para esses trabalhos, não houve o que contornar! Não foi possível adotar outra alternativa até o momento.

Hoje, eu acordo às 7h, medito no primeiro horário do dia, antes de iniciar minhas atividades. Dedico dois grandes blocos de horário para o trabalho, durante a manhã e à tarde. À noite, faço as aulas do mestrado.

As reuniões internas passaram a ser online e mais frequentes. Antes eu fazia três acompanhamentos presenciais com clientes por semana, agora faço à distância. Eu realizo o meu trabalho o tempo todo da minha casa e vejo que trabalho muito mais com essa nova rotina. Estar em casa pode ser uma armadilha se não houver atenção, organização e tolerância”

‘Vamos criando novos hábitos e nos envolvendo mais’

Alessandra Sandonato, 46 anos, gerente de loja Imaginarium em shopping

“Antes da pandemia, eu tinha uma rotina normal de gerente de loja de shopping. Logo cedo já me informava sobre a abertura da loja, verificava a limpeza, os produtos expostos, conferia o estoque, acompanhava os índices de meta e ajudava a atender os clientes. O meu horário habitual era de 12h às 20h, embora acabasse ficando um pouco mais.

Em março, começamos a notar que o movimento estava muito estranho nos corredores do shopping, até que eles avisaram que iriam fechar.

Já em casa, eu criei uma rotina de home office para os funcionários (são cinco vendedores e um estoquista). Como incentivar o time a não perder a atividade mental? Criei uma rotina de indicar filmes, mas achávamos que tudo ia voltar ao normal em uma semana. Não tínhamos dimensão do que seria, já tenho 17 anos de varejo e nunca vi nada assim.

Com o passar do tempo, passei a ficar mais preocupada e olhando por uma visão prolongada, comecei a pensar que quando as coisas voltarem a funcionar as pessoas vão ficar com medo de se relacionar, de aparecer. A empresa já tinha o omnichannel, então me ofereci para ajudar a fazer caixa para a loja. A maioria dos funcionários teve os contratos suspensos já que as lojas estão fechadas.

Me juntei com uma gerente de outra unidade e agora trabalhamos nós duas com a porta fechada. Ela passa na minha casa, me pega, as duas de máscaras, luvas e álcool em gel na mão e vamos para a loja em que ela trabalha. Deixamos um palmo da porta aberta e o ventilador ligado para circular o ar.

O cliente faz a compra pelo site da loja ou pelas redes sociais – que caem direto no meu WhatsApp -, nós pegamos os produtos no estoque, embalamos, chamamos o motoboy e ele faz a entrega ou a pessoa vem buscar. Enquanto isso, a gente fomenta o canal digital nas redes sociais. Vamos criando novos hábitos e nos envolvendo mais emocionalmente com os clientes.

Como a relação está mais próxima, escrevemos bilhetes e mandamos chocolates com as compras, damos um carinho a mais. Temos uma plataforma de telemarketing digital, com a lista de clientes da loja, conseguimos ver o que cada cliente comprou e, com isso, vamos mantendo contato com eles.

Agora, como consigo monitorar os pedidos de casa, eu fico menos horas na loja. Costumo chegar às 12h e sair às 16h. Claro que o nível de vendas também caiu, não tem como não cair. Considerando que agora eu cuido de cinco lojas, a gente tem uma média de 20 pedidos por dia, a não ser em datas comemorativas, como foi o Dia das Mães.”



Fonte: Estadão


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