Publicado por Redação em Previdência Corporate - 17/10/2013

Sem planejar aposentadoria, ex-executivo frita hambúrgueres

Parece outra vida. No auge da sua carreira corporativa, Tom Palome tinha um salário de seis cifras e viajava a trabalho para a Europa na primeira classe.

Hoje, o ex-vice presidente de marketing da Oral-B, de 77 anos, concilia dois empregos de meio período: um como demonstrador de comida em Sam’s Club por US$ 10 a hora e outro cozinhando hambúrgueres e servindo bebidas na churrascaria de um clube de golfe por pouco mais que o salário mínimo.

Como muitos americanos, embora Palome tenha trabalhado duramente toda sua carreira, pago sua hipoteca e a faculdade dos seus filhos, ele não economizou o suficiente para a aposentadoria. Mesmo muitos baby boomers prósperos, que estão chegando ao final das suas carreiras, não pouparam entre dez e vinte vezes a renda salarial anual, soma recomendada pelos especialistas em investimentos para a manutenção de seus padrões de vida na velhice.

Para as famílias de classe média, cuja renda oscila entre aproximadamente entre US$ 50.000 e US$ 100.000, o panorama é especialmente sombrio. Quando se desencadeou a crise financeira de 2008, o pouco que Palome tinha poupado – US$ 90.000 – evaporou-se e de repente ele percebeu que precisava de dinheiro para manter seu estilo de vida. Com anos, se não décadas, por viver ainda, Palome aceitou os empregos que pôde encontrar.

O vigoroso e eternamente otimista avô se considera um felizardo. Ele é abençoado com uma boa saúde, afirma. Ele pode trabalhar, viver independentemente e manter sua dignidade, mesmo tendo que esfregar o chão da churrascaria do clube antes de voltar para casa, às 20h, para descansar.

Enfrentando a realidade

Há tempos que os americanos com baixa renda têm que se virar na velhice, dependendo principalmente da previdência social. Já a classe média, com seus aposentados mais educados e com mais recursos, deveria estar mais bem preparada. Alguns até teriam o luxo de redefinirem suas vidas concebendo a aposentadoria com seus próprios termos. Pelo menos é o que diz a cultura popular.

A realidade costuma ser muito diferente. Cada vez mais idosos que foram gerentes corporativos e profissionais durante boa parte das suas carreiras estão concorrendo por empregos mal pagos. Para essa crescente faixa de idosos com poupanças magras, é o fim da aposentadoria.

Aproximadamente 7,2 milhões de americanos de 65 anos de idade ou mais tinham um emprego no ano passado, um aumento de 67 por cento em relação há uma década, segundo dados do governo. Contudo, 59 por cento das famílias lideradas por pessoas dessa faixa etária atualmente não possuem ativos de contas de aposentadoria, segundo dados da Reserva Federal analisados pelo Instituto Americano de Previdência de Aposentadoria.

Mobilidade descendente

“As pessoas que desenvolveram carreiras bem sucedidas, enviaram seus filhos à universidade e economizaram o que puderam e continuam confrontando a mobilidade descendente”, afirma Teresa Ghilarducci, economista em The New School que estudou as finanças dos idosos.

E logo tudo piorará. Correndo atrás das legiões atuais de idosos encontra-se a geração de baby boomers, que começou a completar 65 anos em 2011 e está chegando a essa idade a um ritmo de 8.000 pessoas por dia. São a primeira geração da qual se espera que financie a própria aposentadoria, mesmo vivendo mais tempo.

Eles também estão ficando sem dinheiro. As pensões pagas pelas companhias são quase uma coisa do passado, substituídas nas últimas três décadas pelas contas 401 (k), financiadas e gerenciadas principalmente pelos próprios funcionários. A mediana de balanços de contas 401 (k) para famílias lideradas por pessoas dentre 55 e 64 anos de idade com contas de aposentadoria era de US$ 120.000 em 2011, segundo o Centro de Pesquisa sobre Aposentadoria da Boston College.

Insuficiente

Essas poupanças fornecerão US$ 4.800 por ano, supondo que os idosos retirem 4 por cento anualmente, a soma recomendada pelos especialistas em aposentadoria a fim de garantir que os aposentados não fiquem sem dinheiro durante sua vida.

“O atual sistema de poupança para aposentadoria não está funcionando, e isso está entrando em crise porque os americanos que completam 65 anos com boa saúde agora vivem pelo menos mais duas décadas”, disse Larry Fink, presidente da BlackRock Inc., a maior gerente de ativos do mundo.

“A longevidade deveria ser uma bênção, mas se você não a planejou, você terá que trabalhar por muito mais tempo do que você já sonhou”, disse Fink. “Ou você deverá ser bom com seus filhos, porque provavelmente tenha que morar com eles”.

Sendo independente

Isso é a última coisa que Tom Palome deseja fazer – mesmo apesar de que seus filhos já tenham lhe oferecido hospedá-lo. Após décadas mantendo seu corpo em boa forma – com 1,74 m., ele pesa uns saudáveis 77 quilos – e com seu cabelo tingido de castanho escuro, as pessoas costumam acreditar que ele tem 60 anos. Ele não pensa abandonar sua independência.

Palome ganha aproximadamente US$ 80 por dia de trabalho - US$ 7,98 por hora em salários e mais gorjetas.

“Em uma semana ganho o que eu ganhava em uma hora”, disse Palome, acrescentando que ele entende que os idosos tenham dificuldades para manter ou arrumar empregos com salários médios.

Previdência social

Palome, que afirmou que seus empregos o mantém ativo e o fazem aprender coisas novas, poderia sobreviver sem trabalhar. Ele recebe US$ 1.200 da previdência social e uma pensão mensal de US$ 600 do seu último emprego corporativo. Contudo, os US$ 1.400 que ele ganha com seus salários lhe permitem economizar mais e permitir-se uns extras. Ele vai ao teatro, paga passagens aéreas para visitar os filhos e netos e ocasionalmente sai de férias.

Quando era jovem, Palome obteve um emprego na Shulton Co., a fabricante da loção pós-barba e colônia Old Spice, e depois mudou-se à Yardley of London, como gerente da marca. Seu grande avanço chegou em 1975, quando foi recrutado pela The Cooper Cos., como vice-presidente de marketing para a companhia de cuidado dental Oral-B.

Esse emprego lhe deu um salário de quase seis cifras e uma vida de executivo aos 39 anos. Ele viajava na primeira classe para os escritórios da Cooper nos EUA e na Inglaterra, na Suécia e na Alemanha. Ele ajudou a obter o apoio do Comitê Olímpico Americano à escova de dente da Oral-B. E tinha um armário cheio de ternos. Nos finais de semana, jogava golfe com outros executivos.

Nos anos de esplendor, Palome possuía muitos clientes e ganhava aproximadamente US$ 120.000. Embora ele tenha poupado para a faculdade dos filhos e ajudado seus pais na velhice, ele não pensava na aposentadoria.

“Nunca achei que eu fosse viver tanto”, explica Palome.

Sem poupança

Como era trabalhador autônomo, Palome não possuía uma conta 401(k) e nunca teve uma Conta Individual de Aposentadoria, isenta de impostos nos EUA. Somente por volta de metade dos trabalhadores do setor privado possuía algum tipo de cobertura de um plano de aposentadoria patrocinado por funcionários em 2011, e menos de 40 cento deles participavam ativamente delas, segundo o Instituto de Pesquisa de Benefícios para Funcionários.

Muitos dos que agora se aproximam à aposentadoria começaram a poupar muito tarde, ou pararam de fazê-lo quando eles ou seus cônjuges perderam seus empregos. Com frequência, eles também realizaram investimentos que não renderam os melhores resultados ou saíram do mercado acionário depois que a crise pulverizou suas poupanças, perdendo a recuperação.

Se há algo do que Palome se arrepende, é não ter procurado um melhor assessoramento sobre investimentos para aposentadoria em algum momento. “Pensei que pudesse fazê-lo sozinho”, conta.

No entanto, ele está orgulhoso dos seus feitos. Ele construiu uma carreira no marketing, criou uma família após a trágica morte da sua esposa e ajudou seus filhos a começarem suas vidas.

“Não vou sentar nos lauréis e falar que eu era executivo, ganhava um salário de seis cifras e viajava pelo mundo”, disse Palome. “Eu digo às pessoas que eu faço demonstrações de comida e cozinho pratos rápidos. Não tenho problema com isso. O que é importante é que eu posso trabalhar hoje”.

 

Fonte: www.exame.com.br


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