Publicado por Redação em Notícias Gerais - 22/01/2014

América Latina vive febre de empreendedorismo

Por décadas, a maior parte da riqueza gerada nos países da América Latina vinha da exportação de matérias-primas.

Petróleo da Venezuela, cobre do Chile, soja da Argentina, banana do Equador, prata do México, madeira do Brasil. A vasta região foi premiada com uma fabulosa coleção de commodities que o mundo quer e precisa.

Mas a América Latina não tem se saído tão bem em exportar ideias. Quando se fala em empreendedorismo e inovação, a região tem um histórico ruim.

Os países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) investem, em média, 2,4% do seu PIB em pesquisa e desenvolvimento. O Chile e no México - os únicos dois países da região que integram o grupo - esse gasto é de 0,4%.

No Brasil, esse investimento representa 1,1% do PIB. Em outros países da região esse volume é ainda menor.

Os latino-americanos simplesmente não inventam muita coisa. Apesar de abrigar 8% da população global, apenas 2,6% dos pedidos de registro de patente do mundo partiram da região.


Mudança de cultura

Mas tudo isso está começando a mudar.

"Até recentemente, empreendedorismo no Peru era uma questão de sobrevivência", conta Gary Urteaga, um empreendedor peruano. "As pessoas começavam seu próprio negócio porque não conseguiam emprego. Então iam vender sanduíches na rua e a lavar carros."

"Mas agora, pela primeira vez, as pessoas estão optando por ser empreendedores."

Urteaga é co-fundador do Cinepapaya.com, uma plataforma para smartphone e tablets que faz a venda online de ingressos para cinema.

"Começamos há dois anos, com o financiamento do governo peruano para inovação. Não sabíamos nem o que a palavra 'start-up' naquela época. Não sabíamos nada."

E o empresário não está sozinho. Em toda a região, cada vez mais as pessoas estão começando a entrar em contato com termos comuns no Vale do Silício há anos.

Na Colômbia, uma start-up da área médica chamada Keraderm conseguiu financiamento do governo para desenvolver tecnologia ligada a enxertos de pele.

Quando um paciente é internado com queimaduras ou ferimentos sérios, a empresa coleta uma pequena mostra de sua pele e, após cinco dias, consegue produzir várias camadas de implantes com as células do paciente. Como é feito a partir da pele da própria pessoa, o risco de rejeição é mais baixo.

"Olhar para um país com a Colômbia, que tem vários problemas em termos de violência e segurança, é ver o quanto mudamos nos últimos 10 anos", diz Jorge Soto, executivo-chefe da Keraderm.

"Agora, os países desenvolvidos vão começar a olhar para nós como uma fonte de novas ideias e novas empresas."


Controlando bois

No Brasil, Danilo Leão aprendeu sobre empreendedorismo a duras penas. Ele foi criado em uma fazenda e, aos 15 anos, cometeu o erro de vender vacas que estavam prenhes. Após a venda, seu pai lhe explicou que ele poderia ter vendido o animal pelo dobro, já que o bezerro também entraria no negócio.

Dessa maneira, ele começou a notar a falta de informações confiáveis sobre rebanhos. E, um ano depois, criou o BovControl - uma start-up de tecnologia que fornece aos criadores informações online detalhadas sobre as 200 milhões de cabeças de gado no Brasil e de outras 40 mil cabeças no mundo todo.

A ideia ganhou o interesse de criadores, abatedores e empresários não apenas no Brasil, mas também nos Estados Unidos e na África do Sul.


'Ano da inovação'

No Chile, o presidente Sebastián Piñera declarou, em 2012, que este seria o "ano do empreendedorismo" e que 2013 seria o da inovação.

Seu governou lançou o programa Start-Up Chile, que financia empreendedores do exterior com US$ 40 mil e fornece vistos de um ano para que eles venham para o país desenvolver suas ideias.

Vivek Wadhwa é um consultor de tecnologia americano que ajudou o governo chileno com o programa. "Eu cheguei no país há alguns anos para analisar os esforços de desenvolvimento do governo e o que eu disse a eles foi que, daquela maneira, eles estavam fadados ao fracasso."

"O Chile estava desperdiçando milhões de dólares na tentativa de criar indústrias de cima para baixo. E então eu disse que o que eles precisavam era de empreendedorismo. O Chile precisa ver a si mesmo como outros países de população pequena, como a Noruega, Israel e Cingapura."

O programa está no seu quarto ano e já financiou cerca de 1.500 empreendedores, tanto chilenos como estrangeiros, e vem inspirando projetos similares no Brasil, no Peru e em outras partes do mundo.


Derrubando a burocracia

O governo chileno também adotou outras medidas, como reduzir a burocracia, para incentivar o setor.

Em 2010, um chileno levava uma média de 27 dias para abrir um negócio. Hoje, o processo demora apenas um dia - como acontece no Brasil. De acordo com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), um microempresário consegue abrir seu negócio no mesmo dia, obtendo seu Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica (CNPJ) no Portal do Cidadão. Em alguns setores, claro, é preciso outros documentos, como licenças para o imóvel, claro.

Recentemente, o Chile também a abrigou o LAB 4+, um encontro entre empreendedores e agências de quatro governos da região: Colômbia, México, Peru e o próprio Chile. Os quatro países querem, até 2015, aumentar para 1% seus investimentos em pesquisa e desenvolvimento.

No entanto, ainda há grandes desafios. Em comparação com a África e a Ásia, pouca gente na América Latina fala inglês - o idioma de facto do empreendedorismo.

E como muitos governos da região sofrem pressão para investir em direitos básicos como saúde e educação, em vez de colocar dinheiro em programas para promover a tecnologia e a inovação. Mas os primeiros passos são promissores.

"Em toda a região, essa cultura vem mudando dramaticamente", diz Soto.

Fonte: BBC Brasil


Posts relacionados

Notícias Gerais, por Redação

Site da Receita Federal ficará fora do ar entre sábado e domingo

A Receita Federal informou que vai paralisar os serviços pela internet no período entre as 7h deste sábado (14) até as às 20h de domingo (15).

Notícias Gerais, por Redação

Previdência privada e juros baixos

Em função do IR reduzido que incide sobre todos os planos, a previdência privada aberta deverá se manter como uma das mais interessantes alternativas de investimento financeiro

Notícias Gerais, por Redação

Governo corta impostos e quer banda larga em metade das casas até 2014

O governo anunciou nesta terça-feira (3) incentivos fiscais para acelerar os investimentos em telecomunicações e ampliar o acesso à internet em bandar larga.

Notícias Gerais, por Redação

Superavit de fevereiro tem melhor resultado para o mês desde 2001

O superavit primário (economia para o pagamento de parte dos juros da dívida pública) do setor público alcançou R$ 9,5 bilhões em fevereiro, melhor resultado para o mês desde 2001, quando começa a série, divulgou nesta sexta-feira o Banco Central.

Notícias Gerais, por Redação

Fusões e aquisições crescem 32% no Brasil no último trimestre de 2011

As fusões e aquisições no Brasil registraram um aumento de 32%, no quarto trimestre de 2011, na comparação com o mesmo período de 2010. A conclusão foi divulgada pela Intralinks.

Notícias Gerais, por Redação

Kassab descarta possibilidade do PSD indicar vice de Serra

Em aberta negociação com dois dos principais partidos que disputarão sua sucessão, o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, afirmou ontem que sua legenda, o PSD, não tem "condições" de preencher a vaga de vice em uma possível candidatura do ex-governador José Serra (PSDB).

Notícias Gerais, por Redação

O Brasil e a inflação

O economista de Harvard Kenneth Rogoff (ex-FMI e ortodoxo) foi um dos primeiros a pregar a solução. Ela ganha a praça, de propósito ou não.

Deixe seu Comentário:

=